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Jalapão: todos os lados do paraíso tocantinense

Ana Reyes
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O Jalapão é bruto e simples. De uma beleza brutalmente impactante e simplesmente única. Os 1,5 mil km² do parque estadual tocantinense reúnem rios e cachoeiras de águas cristalinas, fervedouros, cânions, dunas e serras que garantem muito mais do que fotos incríveis. Ser jalapoeiro é um estado de espírito, que mistura cooperação, confiança, entrega e orgulho dessa terra. Passar alguns dias nesse paraíso é compartilhar todos esses sentimentos. E perceber que a vida pode ser mais leve e feliz, mesmo sem asfalto, internet e protetor solar.

A primeira questão que surge quando se fala em visitar o Jalapão é sobre a possibilidade de conhecer o parque por conta própria. Ainda que tenhamos visto pessoas em carros particulares, acredito que optar por uma agência é a melhor alternativa. Primeiro porque as estradas são bem precárias, de terra, e praticamente não há placas (sem falar na ausência de sinal de celular na maior parte dos locais – a operadora que funciona melhor é a Claro). Além disso, as cidades usadas como base para a visita das atrações são pequenas, com opções de hospedagem limitadas.

O pacote contratado com a agência inclui não só o guia e o transporte para todos os pontos de visitação, como também as hospedagens, as refeições e a entrada das atrações (os fervedouros e cachoeiras custam entre R$ 15 e R$ 20 por pessoa). Sem falar na tranquilidade de percorrer mais de 2 mil quilômetros sem medo de se perder ou de quebrar o carro na estrada. Na nossa excursão, por exemplo, quando um dos veículos teve problemas, rapidamente os ocupantes foram redistribuídos entre os outros carros da agência e o roteiro seguiu sem alterações.

   

Contratamos o pacote de seis dias com a Safari Dourado (R$ 2.650 cada um em julho/2019). E recomendo a empresa sem ressalvas. Além de todos os passeios e serviços terem sido prestados de forma extremamente responsável, o astral e a entrega dos guias são um diferencial. Percebi que, diferentemente dos de outras empresas, nossos guias não se limitavam a nos levar às atrações. Na cachoeira do Formiga, por exemplo, todos caíram na água, para ajudar quem tinha dificuldade para chegar na queda d’água ou para fotografar e dar dicas de fotos e vídeos. E a postura se repetiu em outros pontos que visitamos. Eles foram motoristas, guias, fotógrafos, cozinheiros, mecânicos, motivadores. E contribuíram muito para que a viagem fosse tão especial.

Roteiro

Como tínhamos nove dias de férias, optamos pelo roteiro mais longo, por ser o único que incluía a visita à Lagoa do Japonês. A atração fica na direção das chamadas Serras Gerais, outro parque do Tocantins, e por conta da distância, não costuma ser incluída nos pacotes de quatro ou cinco dias. O ponto de partida para conhecer o Jalapão é a cidade de Palmas. De lá, percorre-se o parque passando pelas cidades de Ponte Alta do Tocantins (duas noites), Mateiros (duas noites) e São Félix do Tocantins (uma noite), até o retorno à capital do estado. Algumas agência fazem o mesmo roteiro ao contrário, começando por São Félix.

1º dia: A agência nos pegou de manhã no hotel em Palmas e seguimos para conhecer as primeiras cachoeiras: da Roncadeira, do Escorrega macaco e do Evilson. Todas muito bonitas e geladas!

      

A última parada é o Cânion do Sussuapara. Seguimos em direção à cidade de Ponte Alta, mas não sem antes acompanharmos um pôr-do-sol incrível no meio da estrada.

   

Nossa família pelos próximos seis dias foram outros dois casais e Matheus, o guia. Com eles passamos muitas horas no carro, dividimos a mesa nas refeições, conhecemos lugares lindos. Mas, como dizem, família a gente não escolhe. Demos sorte de termos encontrado pessoas bem parecidas com a gente, o que tornou a viagem ainda melhor. Ao todo, eram cinco guias, em cinco carros: um grupo grande que se encontrava frequentemente nas atrações, restaurantes e pousadas.

2º dia: Se seu plano é descansar, pode cortar o Jalapão da sua lista de destinos. Acordar às 6h era o padrão para garantir mais tempo nos locais de visitação. Fomos uns dos primeiros a chegar na Lagoa do Japonês, o que foi ótimo para tirar algumas fotos antes do local ficar lotado. O lugar é incrível, com uma água azul cristalina.

   

A parte das grutas lembra inclusive o mar de algumas ilhas gregas, com a vantagem de a água ser doce. O almoço é na própria região da lagoa, o que permite ficar ali até o meio da tarde. E nem dá para enjoar. A agência empresta máscara de mergulho, GoPro e o dome para os fotos embaixo d’água.

   

Seguimos para a Pedra Furada, que é uma montanha com um buraco no meio de onde se vê o pôr-do-sol. Infelizmente, um enxame de abelhas africanas estava atacando os visitantes no alto do morro, motivo pelo qual fomos apenas à parte de baixo da Pedra, que também é “furada”.

   

3º dia: Fizemos uma parada rápida na fazenda que teria sido de Pablo Escobar e depois visitamos a Cachoeira da Velha, que é linda e garante belas fotos. Contudo não é permitido tomar banho, devido ao grande volume de água.

Dali pode-se fazer o rafting pelas corredeiras do rio Novo, uma das atrações extras que a agência oferece. Além do rafting, que custava R$ 200, podia-se fazer ao longo do roteiro rapel, tirolesa e tracking. Como são serviços geralmente oferecidos por outras empresas, recomendo reservar com a agência antes da viagem, pois na hora, no caso do rafting, por exemplo, não havia mais vagas.

    

Quem não se arrisca descer o rio de bote pode ficar esperando na praia do rio Novo, que é linda e cristalina. Ali, foi o único lugar onde não havia restaurante próximo para almoçar. Mas ninguém ficou com fome. Os guias viraram master chefs e prepararam um lanche no capricho para o grupo antes de seguirmos para as dunas do Jalapão.

As imensas montanhas de areia no meio do cerrado são formadas pela erosão da Serra do Espírito Santo, que fica em frente. O vento transporta o material da montanha, que vai se acumulando em forma de duna. Por isso, elas estão sempre aumentando de tamanho. Ali, a beleza e a quantidade de pessoas são igualmente proporcionais, mas dá para se espremer entre a multidão e tirar belas fotos das dunas com o pôr-do-sol.

    

4º dia: Hora de conhecer os famosos fervedouros. Essas “piscinas” naturais cristalinas são formadas a partir de lençóis freáticos, e, apesar de serem muito fundas (algumas com mais de 40 metros de profundidade), não oferecem perigo, pois a pressão da água não deixa você afundar. O fenômeno, chamado de ressurgência, gera uma espécie de “erupção” de areia no fundo do fervedouro, como se a água estivesse realmente fervendo.

O Jalapão é o local do Brasil com o maior número de fervedouros conhecidos. Alguns ainda nem são comercialmente explorados. Nosso roteiro incluiu a visita a oito deles. Como ficam em propriedades particulares, as entradas são todas pagas (mas já abrangidas pelo nosso pacote) e o tempo de permanência na água também é contado: entre 15 e 25 minutos para grupo de quatro a dez pessoas, dependendo do tamanho do fervedouro.

Nesse dia, os guias da agência se dividiram para que não ficássemos todos esperando para visitar o mesmo local. Nosso guia traçou uma estratégia para fugir dos fervedouros mais procurados pela manhã, o que deu super certo e quase não ficamos em fila. O bom é que quase todas as propriedades têm alguma cachoeira ou rio cristalino onde você pode esperar pela sua vez no fervedouro. Meu preferido foi o do encontro das águas, que, como o nome indica, fica num ponto onde o rio Formiga encontra o rio Sono, sendo que um é extremamente gelado e o outro quente e cristalino.

      

Visitamos os fervedouros “Encontro das águas”, “do buritizinho”, “Rio sono”, “do buriti” e “do Ceiça”. Cada um tem alguma característica marcante, mas o que achei mais bonito foi o do buritizinho, pelo azul absurdo da água e o formato de gota, que o diferencia bastante dos demais. Importante saber que, para preservar as águas, em todos os fervedouros e rios do Jalapão é proibida a utilização de protetor solar, repelente e cremes em geral!

      

Nesse dia, ainda passamos pela comunidade quilombola do Mumbuca, onde é possível comprar diversas peças em capim dourado, artesanato típico da região.

5º dia: Que tal acordar às 3h da manhã para fazer uma trilha bem íngreme de 800 metros? Esse programaço foi a atividade extra que escolhemos fazer. O tracking custa R$ 150 e é realizado pelos próprios guias da agência, que sobem a Serra do Espírito Santo com o grupo. O objetivo é contemplar o nascer do sol e a vista incrível do alto da montanha.

   

Quem não faz a trilha, pode dormir até 7h30 (o mais tarde que você vai conseguir se for ao Jalapão). Depois do café, seguimos todos para a Cachoeira do Formiga – sem dúvida o programa mais imperdível do parque. Trata-se de uma queda d’água cristalina, que mais parece uma piscina de tão azul! As fotos falam por si.

      

Terminamos o dia visitando mais dois fervedouros: “das Macaúbas” e “Bela vista” e partimos para a última noite, em São Félix do Tocantins.

6º dia: O último dia no Jalapão incluiu o fervedouro do Alecrim e a Cachoeira das Araras. Depois do almoço, já começamos nosso percurso de volta para Palmas, parando na estrada para fotografar a Serra da Catedral (cujo formato lembra uma igreja) e o morro vermelho (que não é nada de mais). A partir daí são cerca de cinco horas até a capital tocantinense, com aproximadamente 150 quilômetros de estrada de terra e 110 quilômetros de asfalto.

      

Palmas

Como passar por Palmas é obrigatório para quem vai ao Jalapão, vale a pena separar um dia para conhecer um pouco da capital do Tocantins. Nós ficamos dois dias, então sobrou tempo. Na cidade, o roteiro no Centro inclui basicamente uma volta pela Praça dos Girassóis (onde ficam o palácio do Executivo estadual, a Assembleia Legislativa e a sede do Judiciário, além da catedral da cidade, que ainda não foi concluída). Na praça também está o Centro Geodésico do Brasil, o ponto mais central do país.

   

Como Palmas é muito jovem (completou 30 anos em 2019), ainda há muitos espaços vazios. Além disso, as ruas e canteiros são largos e amplos, como em toda cidade planejada, o que torna as distâncias entre os lugares ainda maiores – tudo isso sob um sol de surpreender até os mais acostumados cariocas. Por isso, a forma mais indicada para se locomover é de carro ou uber.

Se sua visita for num domingo, vale a pena passar na feira do Parque do Bosque, que têm dezenas de barracas com diversas comidas típicas, como bolinhos de milho de vários sabores, empadão tocantinense, paçoca salgada, pamonha frita e Chica Doida. A feira fica bem perto do Parque Cesamar, que guarda um monte de capivaras fofinhas.

No segundo dia, conhecemos o ponto que mais nos encantou: as praias do Lago de Palmas – formado após a construção de uma hidrelétrica no rio Tocantins. A praia da Graciosa, uma das mais famosas, não é muito bonita, mas de lá pegamos um barco (R$ 30 por pessoa) para a Ilha Canela, que fica no meio do lago. O espaço é super charmoso, com quiosques e redes banhadas pela praia de água doce. Ficamos até o sol ir embora, quando sai o último barco de volta para o continente. Um pôr-do-sol que, sem dúvidas, também mereceu palmas.

      

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Ana Reyes
Ana Reyes

Carioca, vive equilibrada entre o trabalho em São Paulo e a vida no Rio. Workaholic ansiosa pelo próximo destino de férias, busca conciliar o medo de avião com a vontade de ir sempre mais longe. Descobriu no marido, capixaba, o parceiro ideal com quem quer conhecer o mundo. Jornalista e professora de História, gosta de flanar por grandes cidades e experimentar o cotidiano de cada lugar.

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