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Desbravando o Peru em janeiro: nas alturas até embaixo de chuva

Ana Reyes
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O Inca Pachacuti e a Catedral de Cusco: sincretismo que permeia a cultura andina

Illapa, o deus inca das chuvas e tempestades. É para ele que você deve direcionar suas orações se pretende visitar o Peru entre novembro e janeiro. Durante o verão, é provável que chova todos os dias, e que as paisagens e sítios arqueológicos estejam nublados e enlameados. Mas se você, como nós professores, não tiver outra opção, não se preocupe. Pegue uma bota impermeável e um poncho de chuva e vá se aventurar por esse país incrível!

Lima

Os principais destinos turísticos do Peru, como Machu Picchu, estão na região alta dos Andes, mas a capital, Lima, que costuma ser escala obrigatória da maior parte dos voos em direção a Cusco, também vale a visita. Reservamos dois dias para conhecer a cidade e foram suficientes.

Seção erótica no Museu Larco

Para quem planeja seguir para o centro do antigo Império Inca, Lima pode oferecer uma boa introdução da história e da cultura dos povos que habitaram a região antes do período incaico. Uma boa opção é o sítio arqueológico de Huaca Pucllana e o museu Larco, cujo acervo inclui uma seção erótica, com representações em cerâmica das posições sexuais da época.

A capital peruana é também um excelente destino gastronômico. Dos 50 melhores restaurantes da América do Sul, segundo o ranking dos “50 best”, 10 ficam na cidade, incluindo os dois primeiros colocados. Sugerimos experimentar os frutos do mar, com destaque para o ceviche, e a comida criolla, que traz ingredientes da terra, como batata, milho, feijão e muita pimenta (se você não curte, como eu, fique longe do aji amarillo). Para os paladares mais abertos, alguns pratos incluem bucho, bofe e coração bovino. Conhecemos, e recomendo, o Costa Azul Seafood, o Panchita, a Antigua Taberna Queirolo e a La Lucha Sangucheria Criolla.

Falésias em Miraflores

Banhada pelo Pacífico, Lima não é famosa pelas praias. Culpa do constante tempo nublado que assola a cidade. Mas, apesar dos raríssimos dias de sol, também não costuma chover. O mar é forte e gelado, e há muitas pedras no lugar da areia. Ainda assim, o litoral limenho é uma atração à parte, com suas falésias de mais de 50 metros que formam uma verdadeira muralha entre o oceano e cidade. Reserve uma tarde para caminhar pelo calçadão de Miraflores.

Tiramos o outro dia para visitar o centro histórico, a catedral e algumas igrejas. Por azar, pegamos um período de manifestações. Havia muita polícia e várias ruas estavam sitiadas. O Peru havia se levantado para retirar PPK (o presidente), e para nós, brasileiros, as manchetes eram impagáveis.

Cusco

A antiga capital do Império Inca fica a 3400 metros de altura, por isso quem chega de avião já sente os efeitos da altitude logo nos primeiros minutos. Recomendo separar todo o primeiro dia na cidade para se adaptar, pois, do contrário, é grande a chance de desperdiçar um passeio por conta do mal-estar. O soroche, como chamam o mal da altitude, causa enjoo, dor de cabeça e muito cansaço em atividades simples. A sensação é bem ruim, mas não se desespere. No dia seguinte, já estávamos nos sentindo bem melhor, sem tomar nenhum remédio. Só o chá de coca, ou mesmo mascar umas folhinhas, já ajuda bastante.

Festa típica na igreja de São Pedro, em Cusco

Cusco tem milhares de agências que oferecem visitas guiadas pelos principais sítios arqueológicos da região. Optamos pela Viajes Cusco, mas todas elas terceirizam os passeios, juntando grupos de várias agências. Como tínhamos mais tempo, optamos por contratar quatro dias de passeios com a empresa, a um custo aproximado de 100 dólares:

1. Vale Sul (Tipon, Piquillacta e Andahuaylillas). Para quem precisa de uma viagem mais curta, são as visitas de que eu abriria mão. As terraças de Tipon, por exemplo, você pode ver em Pisac e Ollantaytambo, e os muros e ruas de Piquillacta não são nada demais.

2. City tour pela catedral de Cusco, o templo de Qoriqancha e os sítios de Saicsayhuaman, Q’enqo, Pukapukara e Tambomachay. Visitas indispensáveis e para as quais o guia é bem importante. Qoriqancha, por exemplo, era o antigo templo do Deus Sol, sobre o qual os espanhóis construíram uma igreja. Contudo, a estrutura do templo, feita pelos incas, foi toda mantida (e continua em perfeito estado) em virtude da eficiente técnica antissísmica desenvolvida pelo povo andino. Já o sítio de Sacsayhuaman impressiona pelo tamanho das pedras talhadas e erguidas por esta civilização, algumas com mais de 200 toneladas.

O grande caminho que leva à montanha colorida Apu Winicunca (à direita)

3. Montanha das sete cores. Fizemos uma trilha de 5 quilômetros, partindo de 4200 metros de altura até os 5 mil. O trajeto é difícil, cansativo e te faz querer desistir em vários momentos, mas a experiência é incrível. Recomendo se aventurar apenas após se sentir suficientemente aclimatado à altitude. A ideia é, ao fim do percurso, chegar à famosa rainbow mountain, mas, apesar do verão, pegamos inesperadamente o trajeto e a montanha cobertos de neve.

As terraças em Moray eram utilizadas pelos incas para o desenvolvimento de sementes que se adaptassem aos diversos climas e altitudes

4. Super vale (Chinchero, Salineiras de Maras, Moray e Ollantaytambo). Todas as visitas valem muito a pena. Além dos sítios arqueológicos, é legal conhecer a produção de tecido com a lã da Alpaca. O passeio terminaria com a visita à Pisac, mas optamos por abandonar o grupo em Ollantaytambo, pois pegaríamos ali o trem para Águas Calientes.

Por isso, visitamos Pisac por conta própria alguns dias antes, e acho esta a melhor opção. O sítio é imenso, com terraças impressionantes e construções quase tão bem conservadas como em Machu Picchu. As montanhas guardam inúmeros buracos onde, há centenas de anos, os incas sepultavam seus mortos. Os túmulos, porém, foram saqueados após a conquista espanhola.

As mulheres andinas levam os filhos nas costas para manterem as mãos livres

De Cusco, é possível chegar à cidade de Pisac de van, e lá, para subir até o sítio, o melhor é pegar um taxi, pois a pé seria cerca de uma hora de subida íngreme. Por conta própria, passamos o dia visitando. Já com a agência, o passeio guiado seria de apenas 30 minutos. O mesmo vale para Ollantaytambo, que continuamos visitando depois que o grupo foi embora.

Machu Picchu

Machu Picchu é sem dúvida a parte mais cara da viagem, mas também aquela que não pode ficar de fora. O trem de Ollantaytambo para Águas Calientes fica em torno de 60 dólares o trecho. O ingresso para acessar o sítio arqueológico pode ser adquirido na Prefeitura de Cusco, mas durante a alta temporada é recomendável comprá-lo pela internet.

A cidade inca construída por volta de 1430 pode receber apenas 2500 turistas por dia, o que parece muito, mas fica aquém da procura em julho. Mesmo em janeiro, período considerado de baixa temporada por conta das chuvas, o mar de pessoas no sítio arqueológico é tão impressionante (e ligeiramente irritante) que nem consigo imaginar a dificuldade de visitar o local na época mais badalada.

Para pegar o primeiro ônibus para Machu Picchu (que custa cerca de 25 dólares ida e volta) , às 6h, passamos a noite em Águas Calientes. O ideal é chegar cedo para aproveitar todo o período da manhã. O ingresso é por turno, por isso, até meio-dia é possível entrar e sair mais de uma vez. Sugiro contratar um guia para fazer a visita e conhecer os detalhes das construções e da cultura inca. Muitos profissionais oferecem o serviço na porta do sítio. O passeio guiado dura cerca de 1h30. Depois, você pode ingressar novamente na cidade e refazer todo o percurso por conta própria, para tirar fotos, explorar outros pontos mais distantes e até subir as montanhas Machu Picchu e Huayna Picchu (para quem comprar o ingresso com essa possibilidade).

Machu Picchu tomada pelas nuvens por volta das 7h da manhã

Para tirar aquela foto clássica, é preciso paciência. O mirante com o melhor ângulo é disputado. Mas um detalhe importante para quem pretende ir em janeiro: quando chegamos, a névoa era tão intensa que encobria completamente as montanhas. Por volta de 9h, o tempo começou a abrir, e até o fim da visita ficou completamente limpo. Contudo a época envolve sempre um risco. Conversamos com pessoas que estiveram na cidade em outros dias e tiveram o azar de não conseguir enxergar o entorno das construções, coberto pelas nuvens.

Quem quiser um carimbo de Machu Picchu pode levar o passaporte e conseguir o seu numa barraquinha na saída do sítio. Vale também levar um lanche para comer nas terraças, de frente para a montanha de Huayna Picchu. Há uma revista de mochilas na entrada, mas não tivemos problemas para entrar com nada.

Réveillon em Cusco

Já que estamos falando de conhecer o Peru nas nossas férias de verão, uma possibilidade é passar a virada do ano em Cusco. A experiência é bem interessante.

O amarelo é a cor da sorte para os peruanos e toma conta das ruas durante o réveillon

A cor da sorte para eles é o amarelo, então, no dia 31, a cidade fica cheia de vendedores de flores, cordões, fitas e adereços amarelos. E nos dias seguintes ao réveillon, as ruas continuam com os resquícios amarelos por toda parte.

O principal ponto de encontro para a virada é a Praça das Armas, em frente à catedral. Muitos restaurantes cobram por festas fechadas, mas nós preferimos ficar na rua mesmo, tomando uma Cusceña para esquecer o frio. O espaço fica lotado e depois da meia-noite a tradição é dar a volta na praça para dar sorte para o novo ano. Com a multidão, todo mundo faz o caminho junto, com passinhos de formiga.

Queima de fogos na Praça das Armas

Os fogos não são Copacabana, mas são em grande quantidade. A diferença é que não há uma queima oficial. Qualquer um leva e solta, em qualquer lugar, o que torna a situação um pouco perigosa. Eu acabei sendo acertada por um na perna.

Ao todo, foram 11 dias no Peru. Terminamos a viagem em Puno, às margens do lago Titicaca, antes de pegar o ônibus para a Bolívia. Nesse tempo, teve soroche, queimadura por conta da neve e muita chuva. Teve também a certeza de que o Peru é um país inesquecível, com uma cultura riquíssima. Um destino que vale estar na lista de prioridades de todo viajante, em qualquer época do ano.

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Ana Reyes
Ana Reyes

Carioca, vive equilibrada entre o trabalho em São Paulo e a vida no Rio. Workaholic ansiosa pelo próximo destino de férias, busca conciliar o medo de avião com a vontade de ir sempre mais longe. Descobriu no marido, capixaba, o parceiro ideal com quem quer conhecer o mundo. Jornalista e professora de História, gosta de flanar por grandes cidades e experimentar o cotidiano de cada lugar.

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